sexta-feira, 15 de abril de 2011

Entrevista a António Capela, o mais célebre luthier português

“Prefiro que a casa morra em glória e não em pobreza”



António Capela, nasceu a 25 de Maio de 1932, na freguesia de Anta, concelho de Espinho. É o mais célebre luthier português. Aprendeu a arte com o pai e aperfeiçoo-a em Paris e Itália. Já participou em vários concursos internacionais, onde ganhou medalhas e diplomas de honra pela particularidade sonora dos seus violinos. Actualmente é membro da Associação Internacional de Construtores de Violinos e Arcos, mas é também fundador e vice-presidente da Associação Europeia de Construtores de Violinos e Arcos.



Como começou esta tradição?
António Capela (AC): Esta tradição começou da seguinte forma, o meu pai era marceneiro e trabalhava numa oficina em Espinho. Um dia, um sr. que morava por cima dessa mesma oficina, foi ter com o dono para lhe acertar um cavalete e uma alma num violino e o ele disse-lhe: “olhe, vá ter com aquele moço, o Domingos que tem muita habilidade para essas coisas.” E assim foi, o sr., era um violinista Italiano chamado Nikolino Milano que estava a trabalhar aqui em Espinho e por sinal um violinista com uma reputação muito grande em Portugal. E o meu pai que tinha qualidades extraordinárias com as mãos para madeiras, fez o que ele mandou, dentro da técnica exigida. Esse trabalho originou fazer outros semelhantes e reparações de alguns instrumentos antigos que ele tinha. Ao fim de algum tempo o meu pai praticamente só trabalhava para esse italiano. Entretanto, em 1924 nasce a tuna de Anta e foi preciso fazer um violino e o meu pai, que era um dos sócios fundadores, mostrou desejo de o fazer e assim o foi, começou a trabalhar. Como havia muitas tunas aqui pelo concelho de Gaia e Vila da Feira que se juntavam para ensaiar em Grijó e como os mestres eram de fora começaram a transmitir que o Capela tinha jeito e concertava violinos e eles começaram a procurar o meu pai para esses trabalhos. Penso que não houve tuna nenhuma aqui do concelho de Gaia e Santa Maria da Feira que não tivesse, nesse inicio, instrumentos ou reparações feitas pelo meu pai. Foi o inicio desta casa. Ainda tenho um trabalho feita pelo meu pai com 13 anos de uma perfeição fantástica.
O Sr. seguiu a tradição do seu pai o seu filho também, são três gerações. Haverá uma quarta geração?
AC: Bem, creio que não. Só se as coisas se inverterem. Para mim é um grande desgosto, digo com toda a sinceridade. O meu neto tem vocação, temos trabalhos feitos por ele e tem muito jeito. Mas ele não perde tempo aqui na oficina, prefere ir treinar para o “volei”. Mas também quero referir uma coisa importante, é que prefiro que a casa morra em glória e não em pobreza.
Há quantos anos trabalha como luthier?
AC: Bem, eu nasci no meio dos violinos. Desde pequeno que ajudava o meu pai. Quero referir um pormenor, é que eu também já tinha o “bichinho” de fazer coisas. Eu tirava as cascas mais grossas dos pinheiros e fazia figuras com um canivete. Fiz uma quantidade deles e lembro-me que andava na terceira classe e foram para uma exposição de trabalhos manuais em Aveiro.
Os meus dois irmãos formaram-se, a minha mãe quis que eu fosse estudar, mas eu quis ficar a trabalhar com o meu pai.
A madeira é importante para definir o som final de um violino? Quais as madeiras mais adequadas?
AC: A madeira é importantíssima, nós usamos a madeira vulgar a todos os construtores, são madeiras de grande ressonância, não existem em Portugal, é a “ácer ondulado”, proveniente dos Balcãs e o pinho dos Alpes Italianos. Mas o verniz também é muito importante.
Quanto tempo leva a construir um violino?
AC: A construção de um violino leva aproximadamente dois meses. O violino tem duas fases de construção, construir o violino em branco e depois envernizado. O verniz é um segredo de cada construtor, e precisa de aproximadamente um mês para o envernizar, depende da temperatura ambiente, tem dias de inverno que nem podemos envernizar. Já ganhamos um prémio especial na Polónia, para o melhor verniz em cerca de 150 violinos que estavam a concurso.

“Fico muito feliz quando um filho regressa a casa!”

Recebeu uma bolsa da Gulbenkian para estagiar em Paris na casa Etienne Vatelot e outra para Itália na Escola de Construção de Cremona.
AC: O meu pai trabalhava muito para o conservatório de Lisboa e os músicos vinham cá frequentemente. Ora, eles viam trabalhos feitos por mim e perguntavam ao meu pai porque não me manda estudar para fora. E entretanto, consegui uma bolsa da Gulbenkian. Lá fui para Paris, em Janeiro de 1961, para a casa Etienne Vatelot, onde estive um ano sem a família. Antes do regresso ainda fui três meses para Mirecourt, tinha de lá ir, é a cidade dos maiores construtores de violinos franceses.
Itália foi muito interessante, foi através de um concurso internacional de construção de quartetos (dois violinos, uma viola e um violoncelo) em Liége, em que ficamos em quarto lugar com o melhor quarteto e nesse concurso estava o Mestre da escola de Cremona. Quando viu o meu quarteto ficou rendido, e disse-me logo, tens de vir para Itália. Ora, quando cheguei a Portugal, lá fui à Gulbenkian pedir mais uma bolsa. Fui dois para Itália em 1964, mas desta vez levei a família.
Estas bolsas de que forma contribuíram para o seu sucesso profissional?
AC: Olhe, em Cremona, participei como aluno da escola a um concurso nacional e ganhei o primeiro prémio. Em 1967 voltei a concorrer com dois violinos e voltei a ganhar o primeiro prémio, medalhas de ouro que tenho aqui no cofre. Depois foram outros concursos, na Polónia, na Bélgica, etc, passei a concorrer como António Capela, Portugal, nunca associado a escolas.
O Sr. Capela é um Mestre numa Vila quase desconhecida e com um ateliê modesto. Nunca pensou mudar para uma cidade que lhe desse outra notoriedade?
AC: O Vatelot de Paris queria que eu ficasse lá, mas eu rejeitei. Em Cremona, o director da Escola, o meu pai assistiu, também queria que regressasse para ficar como mestre na escola e eu também rejeitei. E também tive um convite para ir para os Estados Unidos da Europa, para Filadélfia. Recusei todos os convites. Decidi que enquanto o meu pai fosse vivo não o abandonaria. Quando ele faleceu tive um convite de um grande reparador em Lisboa, só que eu tinha que usar o nome da casa e não o meu nome, recusei. E também prendia-me muito a família.
Qual foi o momento mais importante da sua carreira?
AC: O mais emocional foi em 1972 em Pozana. Eu participei com o meu pai com dois violinos cada um. Estávamos a almoçar com dois grandes amigos no restaurante do hotel onde estávamos hospedados e entra um Alemão e só diz isto: “primeiro Capela, segundo Capela, terceiro Capela e quarto Capela.” Eu fiquei tão emocionado que as lágrimas corriam-me pela cara abaixo, foi o momento que mais me marcou e guardarei eternamente na memória.
Quando vê um violino seu na televisão é capaz de o identificar?
AC: Muito rapidamente. Pelo aspecto e pela sonoridade.
Disse que ver um violino Capela partir do ateliê onde o construiu é como a perda de um filho.
AC: Isso é uma realidade. Se os violinos ficarem em Portugal, mais tarde ou mais cedo são obrigados a voltar, para consertar ou o cavalete ou a escala que com o tempo fica gasta e não pode. Mas se vão para o estrangeiro nunca os vejo. Fico muito feliz quando um filho regressa a casa! (risos)

cidaliacasal

3 comentários:

  1. Esta entrevista está muito interessante,do meu ponto de vista e dá a conhecer um homem conhecido internacionalmente e que muita gente desconhece!

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  2. É possível indicar o endereço eletrónico do atelier?!
    aizul_gomes@hotmail.com
    obrigada

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